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Tradwives: submissão feminina nunca sai de moda

Tradwives: submissão feminina nunca sai de moda

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Fatal Model
2 minutos de leitura

Elas aparecem nas redes como quem saiu direto de um comercial antigo de margarina: vestido florido, maquiagem impecável às sete da manhã, um bolo assando no forno e um discurso manso sobre o valor da família.
São as TradWives — esposas tradicionais — que vêm sendo celebradas por encarnarem o ideal feminino “à moda antiga”: devota, submissa, grata por servir.

O curioso é que muitas delas se dizem empoderadas. Alegam que escolheram esse estilo de vida. Que ser do lar, cuidar do marido e viver para a família foi uma decisão consciente, e não uma imposição.
A palavra da vez é “escolha”, mas escolha dentro de que horizonte de possibilidades?

Michel Foucault já nos alertava: o poder não se impõe mais com grilhões e castigos. O poder moderno é sutil. Ele molda. Ele normaliza. Ele faz com que o corpo deseje aquilo que o oprime e ainda ache que foi ideia sua.

Então, quando vejo uma jovem de vinte e poucos anos, cheia de vida e potencial, dizendo que prefere abrir mão de tudo para ser “apenas esposa”, eu me pergunto se há mesmo tanta autonomia nessa decisão… ou se ela está apenas repetindo com mais estética aquilo que a sociedade sempre esperou dela. Agora, com filtro retrô e trilha sonora no Reels.

Não se trata de julgar quem quer cuidar do lar. Trata-se de observar o quanto ainda romantizamos o apagamento feminino como virtude, desde que ele venha embrulhado em estética caprichada e bons modos.

E aqui entra o ponto que talvez doa mais: os mesmos homens que exaltam essas mulheres nas redes, que dizem amar a pureza, a doçura, a obediência, são os que me procuravam.
Na época da Lola, eu vi de perto. Eles queriam a esposa para mostrar e a acompanhante para desejar.Queriam a mulher que não os confrontava em casa. A mulher que os dominava na cama. Porque, no fundo, o fetiche deles nunca foi pela mulher tradicional. Foi pelo controle.Pelo poder de decidir onde começa e onde termina o corpo da mulher.Pelo prazer de dividir o feminino entre o que pode ser amado e o que pode ser “comido”, mas nunca os dois ao mesmo tempo.

E assim seguimos, encenando papéis escritos há séculos: a santa e a puta. A que merece aliança e a que merece silêncio.A esposa que prepara o jantar… E a mulher que limpa o sêmen da boca.

O que a estética TradWife escancara, sem querer, é que ainda estamos muito distantes de uma ideia real de liberdade.  Porque quando o aplauso vem apenas quando a mulher se encaixa, se rende ou se anula, não é autonomia: é domesticação. É anulação.

A você, mulher que me lê: se quiser ser do lar, que seja. Mas que também seja sua.
E que não precise se curvar para caber na fantasia de ninguém. Porque quando o seu desejo é pautado inteiramente pelo olhar do outro… …não é escolha.
É obediência instagramável.

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