Mães e acompanhantes: Os desafios frente à conciliação dos papéis na profissão

Quando eu sentei em frente ao computador e comecei a rascunhar sobre esse texto foi como se passasse um filme nas minhas memórias, sobre os dois últimos anos da minha vida como mãe. Lembrar de como tudo foi muito pesado e, de todas as situações que minha filha e eu passamos.

Fruto de um casamento de quase dez anos, a pequetita (como eu a chamo) tem hoje treze, mas tinha nove quando o pai dela e eu nos separamos e onze quando o mesmo a levou numa pracinha para contar que a mãe dela era uma acompanhante, algo que ela nem tinha noção do que significava na época.

A partir daí, ela começou a se preocupar com o meu bem-estar, me dizia que ouvia muitas coisas ruins sobre a minha profissão. Sentei com ela e expliquei que não era daquela forma com a qual o pai havia contado, mas que era comum aquele tipo de preocupação por parte dele e da família, afinal, eles também não conheciam nada sobre o meu trabalho.

Ela, que já me viu trabalhar como professora, vendedora de cosméticos e diversas outras atividades, entendeu ou pelo menos ficou mais aliviada, algo que para uma criança nem deveria ser motivo de preocupação.

No entanto, quando a descoberta veio à tona na família do meu ex, eu tive que ouvir “isso é uma pouca vergonha, você vai envergonhar sua filha” e na minha cabeça eu só conseguia me questionar: então uma mulher que virou mãe não tem mais direito de ter uma vida sexual livre? Mães não fazem sexo? E se faz, então é errado ter uma vida sexual ativa ou cobrar por ela?

O Moralismo na Maternidade de uma Acompanhante

Há um julgamento pesado sobre mulheres que são mães e trabalhadoras sexuais. Aparentemente, do ponto de vista social e jurídico, uma coisa não se qualifica para outra, pois, tudo se resume a conduta moral e bons costumes. E uma mulher que decide ser acompanhante muito provavelmente não entende de conduta moral, certo!?

Claramente ironizo a questão, mas é dessa forma que somos vistas por pessoas “qualificadas moralmente”. O sistema judiciário que pode afirmar que nós mães não possuímos conduta para criar um filho, é o mesmo que deita sob os lençóis de um motel caro, em nossa companhia, durante seus horários de almoço ou uma “fugidinha” ao meio da tarde.

Já ouvi de um Procurador Federal e de um Delegado, ambos meus clientes, que seria difícil eu ganhar um processo judicial de guarda da minha filha, tendo em vista a minha posição profissional.

“Nina, eu posso perder a guarda dos meus filhos se o pai descobrir que sou acompanhante?” – Sempre respondo essa pergunta para outras colegas, inclusive ontem eu conversava com uma sobre o assunto.

Conforme o artigo 1.638 do Código Civil Brasileiro, “praticar atos contrários à moral e aos bons costumes”, através dessa definição, é o olhar do juiz que vai interpretar a questão, considerando o contexto em que a criança ou o adolescente é criado.

Conheci muitas acompanhantes que também são mães e a preocupação delas é sempre as mesmas: não deixar faltar nada e poder passar um tempo de qualidade com os filhos.

Em dezembro, quando estive em outra cidade a trabalho, conheci duas acompanhantes que também são mães, uma do Rio Grande do Sul e outra de Manaus, ambas tinham nas suas expressões a tristeza e a saudade de estar longe das filhas, mas todas falavam com orgulho de poder proporcionar uma vida confortável, ainda que distante.

Os cuidados que você deve ter com seus filhos:

  • Primeiramente e o mais importante de tudo, nunca, nunca mesmo, atenda clientes na mesma residência que você mora com seus filhos.
  • Não deixe ao livre acesso seu celular com contatos de clientes ou fotos de trabalho, tenha um aparelho somente para o trabalho ou use senha nos aplicativos.
  • Evite conversar sobre seu trabalho na frente deles, ainda que você pense que eles não entendem ou não prestam atenção.
  • Jamais fale sobre seus filhos, principalmente das meninas, para seus clientes homens, você nunca sabe quando está de frente de um pedófilo.
  • Não os deixe sozinhos para ir trabalhar, isso pode resultar em abandono por parte da interpretação de um juiz.

Devo contar sobre minha profissão para meus filhos?

A primeira pergunta que se deve fazer sobre esse assunto é: seus filhos tem idade para entender o que é sexo? Pois não adianta querer explicar algo que eles não tem nem conhecimento básico de como é feito.

Outra questão é: você vai ficar durante muito tempo na profissão? Se é algo passageiro é desnecessário que eles se preocupem com essa informação, a menos que você pretenda trabalhar por muito tempo nela e corra o risco deles descobrirem por outras pessoas.

É sempre melhor a mãe contar do ponto de vista dela, que está no meio, do que outras pessoas de fora, que muitas vezes julgam o trabalho sem entender como realmente funciona – desde que os filhos tenham idade para isso, obviamente.

Não fale sobre o assunto se vitimando, se não seus filhos vão ter a mesma visão sobre o assunto e sentir pena de você. Se é algo que paga as suas contas, põe comida na mesa da sua família e proporciona conforto, para que a autocompaixão, não é mesmo!? Fale com orgulho do seu trabalho, pois é honesto e legalizado.

E por último, se você não se sente segura para falar do assunto, evite. É melhor a dúvida do que a imagem de uma mãe que não se sente bem com seu trabalho.

E você, já se viu diante dessa situação? Conte para mim nos comentários.
Semanalmente eu trago para o blog reflexões sobre o universo de Acompanhantes, como: Minha família descobriu que sou acompanhante e agora?

Se você gosta da temática, deixo aqui o meu convite para visitar a minha coluna semana que vem.
Até mais!

4 COMENTÁRIOS

  1. Como Advogado entendo que a profissão de Acompanhante ainda tem muitos desafios, principalmente no que se refere à maternidade. Contudo, é importante saber que decisões judiciais favoráveis às mães que exercem essa profissão tem surgido, haja vista a profissional do sexo ter seu amparo legal, ou seja, se é previsto pela Lei, não há o que se falar em ferir a moral e os bons costumes.

  2. Recentemente sai com duas acompanhantes que são mães, e durante o bate-papo, elas acabaram falando sobre essa situação. Eu, como homem fico pensando o que faria caso precisasse levar o sustento para casa e não tivesse de onde tirar.

    Acho que apesar de toda a vergonha no começo, também não deixaria faltar o alimento e o teto para um filho.

    Lendo seu relato e refletindo em tudo o que vocês mulheres passam, acho que a única coisa que posso fazer é tirar o chapéu para vocês.

    Parabéns pelos textos.

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