Sobre ser Acompanhante e ter um relacionamento afetivo

O relacionamento amoroso de uma acompanhante é mais cercado de “pré-conceitos” do que a própria profissão, e descobri isso vivendo um.

O que mais as pessoas tomam como certeza é que essas relações sempre acontecem com um cliente, que a/o acompanhante deixa de trabalhar para ser sustentado por ele/ela e que será um relacionamento aberto, pelo fato de julgarem isso como sendo o mais justo, aqueles direitos iguais que tanto se fala sabe?

Mas a verdade é que não é nada disso, e principalmente, não é difícil apenas para quem namora a pessoa que trabalha como acompanhante, é difícil para ambos, como em qualquer outro relacionamento.

Temos vida social, não lidamos apenas com clientes

A primeira coisa que perguntam quando uma acompanhante fala que está namorando é “ele era cliente?”, como se nossa vida fosse limitada a conhecer homens ou mulheres apenas através do trabalho, ou pior, que ninguém se interessaria em ter um relacionamento conosco por conta do que fazemos.

Temos amigos, saímos com pessoas de forma “recreativa”, sem envolver dinheiro ou qualquer interesse, além de conhecer aquela pessoa.

Acaba sendo mais comum acompanhantes namorarem clientes, por não conseguir organizar vida pessoal e profissional, se colocam disponíveis 24h para o trabalho, e pela necessidade de desopilar e relaxar, fazem isso com os clientes e não com amigos ou outras pessoas.

Ter um relacionamento aberto não é regra

Outra coisa que as pessoas tendem a achar que é uma regra para que dê certo é o relacionamento ser aberto, já que dessa forma seria mais justo, visto que a acompanhante tem relações sexuais com seus clientes, então não poderia “exigir” que seu parceiro fosse fiel.

Primeiro, que EXIGIR estava entre aspas porque fidelidade não se exige, ou a pessoa quer, ou não quer ficar apenas com você. Segundo, é errado enxergar a relação dessa maneira, como eu já comparei outras vezes, atores dão beijo técnico e até gravam cenas mais quentes durante o trabalho, e nem por isso tem um relacionamento aberto.

Aquele ato é encarado como TRABALHO e nada mais, muito diferente do que seria escolher uma pessoa e ter relações íntimas com ela apenas porque você quis.

Algumas pessoas vão falar “ah, mas às vezes vocês têm prazer, ainda é trabalho?” SIM! Você que está lendo esse texto, no seu trabalho, quando faz algo que gosta, você abre mão do seu pagamento por isso, ou deixa de ser profissional apenas por ter algum prazer? Claro que não! Com a gente é a mesma coisa.

Começar um relacionamento não significa mudar de profissão

O mais comum quando acompanhantes começam um relacionamento, é mudar de profissão ou parar de trabalhar para ser sustentados pelo parceiro, eu já optei no passado pela primeira opção, e não foi legal.

Mudar a sua vida apenas por conta da chegada de outra pessoa nela é terrível e quase sempre traz arrependimento. Você vê sua renda desmoronar, na maioria das vezes entra em crise financeira, logo vem uma depressão, o relacionamento não dura e você termina com uma mão na frente e outra atrás. Claro que aqui estou relatando um cenário negativo, que foi o que vivi inclusive, mas pode ser que dê certo, não dá para ter certeza.

Ser bancado pode ser que funcione também, mas o risco é alto, perder sua independência financeira é péssimo, ficar refém do dinheiro de alguém até para comer não é nada legal, isso pode até acabar te mantendo em uma relação só por necessidade. Mas não sejamos pessimistas, claro que pode funcionar essas duas opções, apenas se certifique de manter sua independência e não passar por nenhum sufoco financeiro, porque infelizmente precisamos de dinheiro para viver, sejamos realistas.

Para nós também é difícil

Eu sempre achei que para quem me namorasse seria muito mais difícil lidar com meu trabalho, do que para mim mesma, por conta do ciúme, preconceitos, sentimento de troca e tudo mais que você possa imaginar.

Porém, descobri que para mim como acompanhante também não é fácil, não podemos jamais menosprezar o quanto pode ser difícil lidar com nosso trabalho, o sentimento de culpa, de se sentir traindo no começo é muito forte, não somos máquinas.

Sabe aquele começo de relação quando você se sente apaixonado e só quer aquela pessoa o tempo todo? Imagina sentir isso e ter que estar com outra que você nem conhece, é complexo ter aquela “virada de chave” que acostumamos durante um atendimento, quando seus sentimentos estão tão aflorados e intensos.

Até entendermos que aquele ato não foi uma traição nem algo errado leva tempo, e até isso acontecer é inevitável não se sentir mal consigo mesmo, por isso é tão importante que o parceiro saiba do seu trabalho e você não tenha que lidar com isso sozinho.

Lidar com preconceito não é para todos

Não diferente de qualquer relacionamento, confiar um no outro e ser honesto sobre o que faz e sente é de extrema importância. Nem todo mundo conseguirá lidar com um relacionamento assim, em outros “normais” as pessoas já se metem, imagina no nosso caso.

Nós mulheres acompanhantes somos sempre tachadas de p*tas interesseiras, como se estivéssemos no relacionamento para sermos sustentadas e salvas, e os homens com quem estamos serão sempre os cornos e oportunistas, que só estão aproveitando uma brecha para ficar com a gente de graça. Tendo em mente que esses comentários virão, é preciso muita autoestima e amor-próprio para não se deixar abalar nem afetar o relacionamento.

Ter um relacionamento saudável, se sentir amado e feliz é possível para todos, e não é uma profissão que fará alguém não viver isso, relações são sempre difíceis, com um acompanhante não é impossível, impossível é se relacionar com pessoas abusivas, sem caráter, manipuladoras ao extremo e que te ferem física ou psicologicamente, isso sim é impossível. 

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