Saúde mental na profissão: Como lidar com os desabafos dos clientes?
Lidar com o desabafo dos clientes pode não ser algo fácil para alguns acompanhantes. Saber preservar sua saúde mental é imprescindível.

Foi o tempo em que os profissionais do sexo se preocupavam somente com as doenças sexualmente transmissíveis, ou então, com a violência sexual. Na atual realidade ter maior atenção com nossa saúde mental é de extrema importância.

Antes precisamos entender o que é a saúde mental, esse termo que ainda é algo novo para muita gente, principalmente para quem não é muito familiarizado com as redes sociais.

Nesse artigo, quero mostrar a importância para o profissional acompanhante de entender as razões e aprender sobre gerenciamento das emoções nesse trabalho. No sentido de conviver com os problemas relatados pelos clientes durante os atendimentos.

O que é saúde mental

Ter saúde mental é saber gerenciar ou controlar as próprias emoções. Garimpar nos sentimentos aquilo que realmente é importante gastar energia e descartar todo o resto que só traz preocupação e gera ansiedade.

Ainda não existe um conceito específico e definido sobre o assunto, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, a forma com que lidamos com os nossos conflitos internos e externos. Os problemas diários, os estresses profissionais e familiares diz muito sobre nossa capacidade emocional.

De acordo com uma pesquisa do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – em 2019, o índice de pessoas com depressão aumentou 34,2% em seis anos, em 2013 os casos somavam 7,6% da população brasileira. E aumentou para 10,2%, isso significa 16,3 milhões de brasileiros acima de 18 anos.

Ao contrário do que a maioria pensa, a máquina cerebral não é tão simples de ser controlada. Passamos boa parte da nossa vida escutando dos médicos na televisão ou na internet, como era importante cuidar da saúde física. Agora precisamos aprender a cuidar também do nosso psicológico.

Os desabafos dos clientes

Muitos profissionais que trabalham com prestação de serviços como uma manicure, o cabelereiro, o professor, a faxineira, precisam lidar com problemas externos, ou seja, de seus clientes e muitas vezes fazem o papel de psicólogo.
Com os profissionais acompanhantes não é diferente. Por diversas vezes atendemos homens e mulheres que só buscam nossos serviços por precisam relaxar e desabafar algum problema, que eles preferem não dividir com a esposa/marido ou amigos, devidos à gravidade da situação ou por sentir vergonha.

No ano passado quando fui visitar a minha cidade de origem, um antigo cliente viu pelas redes sociais que eu estava na cidade e pediu um horário comigo. Combinamos tudo certinho e nos encontramos no fim da tarde num hotel.
Ele entrou e me cumprimentou com um abraço muito apertado e foi tomar um banho, em seguida deitou da cama e desabou ao contar a história.
O rapaz, que tinha por volta de uns trinta e cinco anos, tinha acabado de começar a trabalhar como motorista de aplicativo e de cara, foi vítima de um sequestro relâmpago de uma facção criminosa, por ter sido confundido com outra pessoa.
Os bandidos achavam que ele era um policial disfarçado e que tinha entregado uma determinada operação. Para sorte dele e da sua família, no fim, perceberam a tempo que ele não era a pessoa que estavam procurando e o liberaram.
Mas aquela situação o deixou detonado (e com toda razão) emocionalmente, com medo de que algo mais acontecesse, não podia abandonar o trabalho, pois agora era sua única fonte de renda e, se contasse a família, os deixariam preocupados também.

Numa outra situação, um outro cliente sempre tinha um comportamento estranho quando estávamos na cama, ficando imóvel e fazendo expressões de sofrimento.
Decidi perguntar a ele para entender se era algo comigo, para que pudéssemos resolver e ter um momento durante o atendimento de maneira mais agradável. Ele respondeu que não e depois de um curto silêncio, se abriu e desabafou um caso de abuso sexual na infância.
Daí que o trauma resultou no atual comportamento dele, que precisava do sexo para se satisfazer fisiologicamente, mas se sentia abusado e culpado.

Com uma amiga acompanhante do Rio de Janeiro aconteceu algo semelhante. Um cliente relatou a ela que estava na fase de metástase do câncer, que é quando a doença se espalha pelo corpo e o tratamento é somente paliativo. Ela voltou para a casa pensativa sobre a situação.

Como isso afeita os (as) acompanhantes

Como muitos outros trabalhadores, o acompanhante não consegue apenas deixar as histórias e os problemas relatados dentro dos quartos de motéis ou hotéis. A gente volta para casa e pensa ainda no ocorrido durante alguns dias.

Agora imagine-se todos os dias ouvindo relatos de pessoas com problemas. Tudo bem que o profissional da saúde, o psicólogo, o psiquiatra ou o terapeuta passam por isso diariamente, mas esses são preparados na faculdade para isso.

O profissional do sexo não tem esse tipo de preparação, a gente simplesmente escuta e repensa isso por mais uns dias. Alguns se afetam pelos problemas alheios e encontram na bebida ou nas drogas um escape.

Como lidar com os problemas alheios?

Existe um ditado que diz assim: “Quem está na chuva é para se molhar”. A primeira coisa a entender é que em qualquer profissão vamos ouvir coisas que não estamos preparados emocionalmente para entender ou ajudar.

Não é uma particularidade da profissão, mas para o cliente é como uma oportunidade de dividir com alguém que não vai julga-lo ou contar para os seus conhecidos algo que te incomoda.

Entretanto, é importante que o acompanhante saiba também processar aquelas informações para que também não o perturbe psicologicamente. Sempre há duas opções na vida: reclamar ou ser grato.

A gente pode escolher reclamar por ter que escutar algo que não gostaria e passar o dia todo pensando nisso ou ser grato por ter o dom da audição e ver que uma pessoa confiou ou se sentiu confortável com você para dividir algo que o incomodava.

Então você ouve o problema, entende que ele não é seu, dá uma palavra de conforto para a pessoa, nem que seja um: “vai ficar tudo bem”, analisa se tem algo ali para aprendizado próprio e se não tem, apenas agradeça mentalmente pelo problema não ser seu.

Não se torture. Um acompanhante não é uma lata de lixo que as pessoas descartam problemas, pelo contrário, se alguém te procura para isso é porque confia em você de alguma forma.

Descubra a sua maneira de relaxar e desapegar emocionalmente dessas situações. No meu caso, por exemplo, é a escrita. Sempre que sento em frente ao computador e escrevo, automaticamente me relaxa.

Para outras pessoas é fazendo uma atividade física, tocando um instrumento ou apenas assistindo um filme para desconectar. O importante é não guardar os problemas alheios para si e entender que a sua saúde mental precisa estar bem tanto quanto seu corpo.

Gostou do assunto? Aqui no Fatal Blog tem muitos outros textos voltados a saúde. Como o artigo que produzi sobre A Saúde Dos Acompanhantes. Vale a pena conferir.

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